tagarelando com alice


Era véspera da viagem que faríamos na semana passada. Lá fomos eu e Alice ao shopping comprar os ovos de Páscoa para a nossa empregada, os filhos dela e para a babá, além de resolver outras coisas. João e Carol ficaram em casa.
#pausa#
Carol preferiu ficar ensaiando uma de suas apresentações. Ela adora se vestir de palhaço ou de mágico, ligar o som e ficar dançando e cantando; o detalhe é que ela não gosta que vejam; esses ensaios são sempre secretos, para não estragar a surpresa da apresentação, que até hoje não aconteceu por falta de oportunidade; quem sabe no aniversário dela.
Alice sempre topa ir pra rua. É só chamar que ela fica doidinha e sai correndo pra se arrumar. E se ninguém chamá-la ela se oferece numa boa. E aí sempre que dá a gente leva. Eu me divirto com ela.
#despausa#
Naquele dia ela esperou pacientemente eu resolver tudo e no final das contas disse que estava com fome e que queria um sorvete. Combinamos de primeiro tomar um café e comer pão de queijo. Ela aceitou na hora, porque é louca por pão de queijo. Quando a porção que pedimos chegou à mesa, ela não queria me dar um pãozinho sequer.
- Mas, filha, você não pode comer tudo, não faz bem. E eu também estou com fome.
Comi dois. Sobraram quatro para ela. Quando fui pegar o terceiro...
- Tá bom, mãe, você já comeu.
- Tudo bem, filha, pode comer, pode comer esses quatro.
Quando pegou o último pãozinho, ele o partiu ao meio e me deu a outra metade:
- Toma, mãe.
Lancei um sorriso e dei um beijinho nela.
- Obrigada, meu anjo.
Após alguns minutos de silêncio, ela comentou:
- Mãe, eu sei compartilhar. (morri do coração...)
- Estou vendo, filha. Que bom. Você aprendeu com quem?
- Com o livro de Bibi, mãe. Aquele, ‘Bibi compartilha suas coisas”. (Olha aí a importância dos livros para reforçar os valores que passamos aos nossos filhos...)
Peguei a garrafa de água pra beber e prontamente ela falou:
- Mãe, você tem que dividir.
- Claro, meu bem.
Ela pegou dois copos e levou quase duas horas até conseguir colocar a mesma quantidade de água nos dois. Vou dizer o quê?
Depois fomos pegar o sorvete. E durante o trajeto até o carro, todo mundo que passava por nós ria de Alice, que àquela altura estava com a boca completamente lambuzada de sorvete de chocolate (a roupa nem se fala). Eu olhava pra ela e ria junto.
Já no carro, enfrentamos o maior trânsito no caminho pra casa. Alice, com uma voz impaciente, começou a conversar comigo:
- Mãe, não gostei muito desse sorvete.
- Não gostou, filha? Por quê?
- Porque quando tomei esse sorvete tudo ficou estranho.
- Estranho como?
- Tudo engarrafado, mãe. Os carros não andam.

Quando chegamos em casa, Carol e João já tinham tomado banho e jantado. Estavam só esperando a gente pra dormir.
E durante a briga que acontece toda noite pra ver quem vai ficar comigo na hora de dormir (tenho sempre que ficar lembrando do "combinado" do revezamento), Alice sai com essa:
- Mãe, porque você não é duas?

Tem mais. Hoje, andando pra lá e pra cá pela casa arrumando coisas, Alice ficou atrás de mim o tempo todo. Quando resolvi sentar na cama, ela sentou ao meu lado e me disse:

- Mãe, vou ficar te seguindo, tá?

- Porque, meu amor?

- Porque eu quero ficar com você.

- Mas meu amor, mamãe não está aqui com você?

- Mas eu quero ficar no seu colo...!

Eu morro com isso. São três pessoinhas que estão sempre carentes de uma mãe em tempo integral.

A gente faz o que pode, né?



saudades? eu sinto


A saudade sempre esteve presente em minha vida. Estou sempre com saudade de alguma coisa.
Nos primeiros anos de casamento, senti saudade da minha lua-de-mel em Fortaleza, minha primeira viagem a sós com o meu namorado-noivo de quase dez anos.
Quando a nossa primeira filha nasceu, Carolina, não demorou muito para que eu sentisse falta da barriga e de toda a atenção exagerada que recebi durante a gravidez.
Carol foi crescendo, crescendo...e eu comecei a sentir saudade do bebezinho tão dependente, indefeso, vestido com roupinhas miúdas e que só fazia chorar, tentando dizer o que para nós, na maioria das vezes, era então incompreensível.
Quando aquela menina decidiu deixar o peito, passei a sentir saudade da amamentação e daquela mãozinha pequena que tocava o meu colo com tanta suavidade que parecia uma borboleta pousando suavemente.
Depois Alice chegou, e a saudade do bebê foi suprida momentaneamente. Revivi muitos momentos dos quais há tempos sentia falta. E o fiz com mais intensidade, mais atenção, mais tranquilidade, porque não estava mais diante do novo, mas do tudo de novo.
Alice foi crescendo, crescendo...e a saudade do bebê voltou. E novamente a falta do apego ao peito, quando ela decidiu que não queria mais o leite natural.
E não é que teve jeito de driblar a saudade de novo? Tudo aconteceu despropositadamente, mas, contraditoriamente, intencional. João chegou para abrandar o nosso coração.
Hoje vendo João tão desenvolvido, esperto e independente, dentro do que a vida pode lhe proporcionar com um ano e meio, sinto saudades sim, de um bebê recém-nascido, da barriga, das dores do parto. Calma, não sou louca de ter mais um filho. Mas agora é uma saudade diferente e que não mais me impulsiona a reviver tudo de novo, mais uma vez. Essa saudade estará sempre pulsando, mas como espelho do amor que construímos até aqui com os nossos filhos, como lembranças de como fomos (e somos) felizes.
A saudade que se mantém mais presente hoje, depois de acolher três maravilhosas vidas dentro da nossa, é do frescor da juventude “mais nova” afinal não sou tão velha assim, da liberdade de fazer o quero, na hora que quero, sem que tenha alguém esperando por mim. Saudade de quando eu não precisava controlar tanto o meu tempo; de quando tinha espaço para eu simplesmente me entregar ao ócio e aos meus momentos de devaneio; de deitar sem ter de pensar no que faria no dia seguinte; de viajar sem me preocupar com o que levar; de dormir profundamente sem ficar tensa com a possibilidade do despertador tocar; de sair do banho com a certeza de estar limpa; de falar com alguém no telefone sem contratempos; de ter momentos para conversar comigo mesmo.
Essa saudade não me traz angústia ou sofrimento, não. Sou plenamente realizada e feliz com a minha família, com os meus filhos. E não me sinto culpada por ter saudade de coisas tão simples e dos hábitos que tinha antes de vivenciar a maternidade. Esses “flashbacks” me fazem um bem danado. É como se  o tempo parasse, eu desfrutasse um pouquinho daquela paz, e voltasse para o meu mundo real (que é infinitamente melhor), mais fortalecida.
Ter experimentado o nascimento de meus três filhos, vibrar com as superações de cada um, viver situações novas todos os dias, me surpreender com minhas próprias ações, administrar vidas tão dependentes da minha, olhar para cada um deles com um amor infinito e me sentir amada, chorar junto com eles, ser chamada de MÃE e dormir com o coração explodindo de tanta felicidade, são coisas que não dá pra explicar.
Mas a saudade é algo que alimenta a minha alma. Ela apazigua ressentimentos, dá ânimo diante das incertezas e garante um constante e eterno estado de felicidade quando a gente se deixa levar por ela.
Viver o agora é maravilhoso, uma dádiva. Porém a saudade também é fundamental, porque senti-la é ter a certeza de que a vida está sempre lembrando de que somos felizes.
E vocês, sentem saudade? Ou sou eu que ando me rendendo demais à nostalgia?

minhas daminhas voltaram

  
E não é que mãe e filhas resistiram bravamente? Carol e Alice ficaram tão bem durante a viagem, que parece que se esqueceram da existência da mãe aqui, que fiquei até surpreendida. Ou seja, fui eu que fiz o estardalhaço.
As daminhas entraram lindas na igreja, mesmo sem terem tido tempo de ensaiar. Mataram a vontade e tenho certeza de que esperarão os próximos convites.

***

Agora que matei a saudade das filhotas, posso me acabar nos ovos de Páscoa? Tô viciada. Sem falar que passei o dia inteiro ontem e hoje tirando lasquinhas de um e de outro e ainda me joguei num sorvete de brownie no copo com duas bolas gigantes, um dos mais gostosos que já comi na vida, na sorveteria A Cubana.

Tô demais! Merecidamente.

Bjos, bjos e até logo!

as donas das histórias

As meninas entraram numa fase de criação das próprias historinhas. Pedem para eu montar a base do livro, com capa colorida, e viajam na imaginação. Como Alice ainda não sabe escrever, mas está aprendendo o alfabeto e a construção de palavras (ela tem utilizado na escola e em casa um alfabeto móvel, de papel, que ajuda muito nesse processo), ela vai narrando a história e eu vou anotando, embora de vez em quando ela me peça a caneta para escrever o nome de uma fada, de uma amiga etc. Normalmente fazemos as historinhas à noite e juro que fico morta de cansaço, mas não tenho coragem de negar um pedido como esse: "mãe, você faz uma historinha comigo?.". Dizer não significaria dormir com o pesadelo da culpa por estar perdendo a oportunidade de estar junto com elas e alimentando uma brincadeira tão interessante, estimulante e despretensiosa.



E a de Alice ficou assim, por ela mesmo narrada:

A BAILARINA QUE ADORA DANÇAR





Uma bailarina veio para a natureza, mas quando ela foi pra natureza, aí mesmo sim, ficou de noite.



Mas ela tive um sonho e viu sua melhor amiga, que ela mais adorava. O nome era NAN JULIA. E as duas faziam balé. Mas ela se casou e tive uma melhor amiga também, MARCELA.


Ela foi pra Salvador. A primavera chegou. A princesa Alice é bonita e carinhosa.


Ela virou babá.


A princesa Alice, depois que virou babá, virou uma mãe e todos foram felizes para sempre. O pai se chamava Vitor. E ponto final.

***


Alice quando começou o processo de criação:





***


Carol, que já se aventura na escrita, escreveu do jeitinho dela.  Olha como ficou:




era uma vez um dálmata



ele tinha um menino que cuidava dele e Brincava muito com ele. Todos os dias Totó e beto brincavam de bola.


O dono jogou a bola e ele foi pegar a bola e de repente o cachorro coreu tanto que parou depressa e deu uma cambalhota! Rolou, rolou, rolou...


Tanto que se machucou. O dono dele achou ele machocado e levou totó para casa. ele foi melhorando por semanas.



e ele melhorou FIM.

***


Carol fazendo a leitura final da sua obra:



***


E ela ainda fez mais uma de palhacinho. Observando o livro, somente com desenhos, perguntei a ela: “Filha, você vai escrever alguma coisa?”. Ela prontamente respondeu: “Não mãe, essa história só tem figuras.”.  Entendeu, mãe?




Tem como não incentivar? Tem como não morrer de orgulho? Que venham muitas outras historinhas!

***

Aproveito para desejar a todos uma Páscoa repleta de paz e harmonia! E que os chocolates saboreados sejam transformados em esperança de um mundo cada vez melhor!
***

Estou viajando amanhã e só volto no Domingo. Não é por conta do feriado, mas sim do casamento do primo de Cinho no interior do Estado. Se não fosse por isso, ficaria descansando em casa, porque não aguento mais fazer e desfazer malas de criança, montar a lista de remédios, organizar as merendas e pensar na logística dos banhos, da comida e do sono em lugares que não são a minha casa! Além de tudo, sinto falta do meu travesseiro de visco elástico que comprei na última promoção, que nunca consegue um espaço no carro por causa das tralhas todas que levamos.

Bjos, bjos!










curtas + auto-estima + livros


Esta semana ajudei Carol a construir a árvore genealógica da nossa família, a pedido da professora dela. Pegamos fotos, enfeitamos e conversamos muito sobre os graus de parentesco, sobre a nossa história familiar etc. Foi massa. Ri muito com os comentários dela.
Vendo a foto de Cinho, tirada justamente no dia em que Carol nasceu, ela comentou comigo:
- Mãe, papai tá bonito aqui.
- É filha, e hoje você acha que ele está bem?
- Está mãe, mas antes estava melhor. Ele está mais novo nesta foto, mais bonitinho, parece um adolescente...(te cuida pai!).

E olhando as fotos dos seus bisavôs e bisavós, Carol me perguntou:
- Mãe, todo mundo já morreu, aqui?
- Quase, filha. Sua bisavó Maria, mãe de vovô Wiliam, está viva. É que ela mora longe, por isso a gente não a vê muito.
- E ela? Vai morrer quando?

 ***

E por falar em atividade de casa, continua não sendo nada fácil ficar sozinha com Carol nesses momentos. Alice ontem ficou choramingando, deitada no chão e fez mil estripulias pra chamar a atenção. Quando dá pra fazer só no meu quarto é ótimo. Mas quando não dá, porque preciso de espaço, acabo ficando na sala e tenho de administrar isso. Ontem a peguei no colo e conversamos mais uma vez. Disse que não precisava fazer aquilo pra que eu prestasse a atenção nela, que eu a amava independente de qualquer coisa e que mesmo concentrada nas atividades com Carol estava ali, perto, cuidando dela também.
Ainda ontem tive de sair do computador, deixar o trabalho de lado para ficar com ela, porque não tive condição alguma de me concentrar e ainda corria contra o tempo por conta de em evento profissional que teria de ir (e por conta da minha necessidade de sair de casa ela também reclamou muito, mas me mantive firme e disse que era um compromisso de trabalho). Deitamos na minha cama, amassei a pequena de beijos e carinho, conversamos sobre a escola, a historinha que estamos criando juntas...Isso foi o suficiente pra alterar todo o contexto. Ela mudou completamente o humor, me ajudou com a maquiagem para o evento, a escolher o colar que combinasse com a roupa e ainda de quebra ganhou um gloss bem clarinho, daqueles que eu não usava há muito tempo, mas fez a alegria dela. Combinamos que ela só irá usar em dia de festa importante. No dia a dia nem pensar.
Sei que essas ações e conversas irão se repetir milhares de vezes, mas não vou desistir até que ela se sinta segura e confie no que estou lhe dizendo. #respirandofundo#

***

Pegando carona nessa situação, acabei de ler “A auto-estima do seu filho”, de Dorothy Briggs, um livro recomendadíssimo por Renata, e que faço questão de reforçar aqui a indicação.


Antes de falar o que achei do livro, preciso admitir que sempre tive muita resistência em comprar livros referentes à psicologia infantil, talvez por achar que todos traziam “fórmulas mágicas” incontestáveis e consideradas “ideais” para serem seguidas pelos pais. E quem não estivesse abarcado nesse “padrão” teria de rever os seus conceitos. No fundo, todos seguiriam a mesma linha dos livros de auto-ajuda, que eu particularmente não gosto, embora já tenha lido um.
Aos poucos, fui quebrando esse preconceito e me deparei com coisas interessantíssimas nesse universo da psicologia infantil, embora ainda não me arrisque a comprar um livro desse tema por livre escolha, mas apenas quando bem indicado. Aprendi a filtrar as informações e a flexibilizar as opções e caminhos sugeridos, na linha do que sempre fiz com qualquer outro tipo de livro, baseando-me principalmente em outras fontes (conversas com pessoas mais experientes, vivências pessoais, artigos, consultas a profissionais etc.).
Ou seja, são livros que, para mim, devem ser lidos com atenção ao senso crítico, para que a gente não se deixe levar pelas regras do “tem de ser assim” ou  do “tudo ou nada”. Em verdade, se foi  capaz de gerar um “incômodo” positivo, como um convite à reflexão, já valeu a pena a leitura. Portanto, existem livros e LIVROS.
E o livro ao qual me referi conseguiu mexer comigo.
Mais do que permitir que eu refletisse a respeito de pequenas atitudes que devemos adotar em relação aos nossos filhos no sentido de fortalecer sua auto-estima, ele me fez volver a alguns episódios da minha infância ao lado de meus pais e meus irmãos. Em vários momentos pensei muito sobre a relação que tivemos e a forma como agimos uns com os outros, de modo que questões que se apresentavam um pouco confusas pra mim, tornaram-se mais claras, mais compreensíveis. Consegui identificar aspectos positivos e outros tantos negativos. Mas isso é passado, ficou para trás. Tenho de pensar no agora.
Voltando ao conteúdo do livro, a importância da auto-estima é abordada de forma objetiva e simples, mas nem por isso com superficialidade. Concentra-se muito nos efeitos que as atitudes e palavras dirigidas aos filhos podem provocar em suas vidas a curto, médio e longo prazo, interferindo diretamente na sua segurança psicológica (e/ou emocional) que, como pais zelosos, buscamos preservar.
Além disso, em outros momentos me vi diante de uma auto-análise, a respeito do meu próprio comportamento e das minhas atitudes também em relação às pessoas que estão no meu círculo de convívio (amigos, familiares, colegas de trabalho etc.). Ou seja, os ensinamentos que o livro traz ultrapassam a relação de pais e filhos, podendo ser perfeitamente utilizados fora do âmbito estritamente familiar.
Portanto, a leitura é extremamente válida. No mínimo, provoca no leitor uma inquietação que o impulsiona a buscar novos caminhos para melhorar a sua relação com os outros e porque não consigo mesmo. 

Só duas observações: sou completamente leiga na área de psicologia e estou indicando o livro aqui nesta condição, portanto, compartilhando as minhas impressões pessoais sobre ele. Leiam e tirem suas próprias conclusões, vale a pena; o livro está esgotado na editora, mas ainda pode ser encontrado em sebos, a exemplo do http://www.estantevirtual.com.br/, onde adquiri o meu exemplar.

E à propósito ainda desse universo infantil, com foco para o comportamento, indico dois outros livros de que gostei muito, ambos de Ana Beatriz Barbosa Silva:


Mentes Inquietas - Tdah : Desatenção, Hiperatividade e Impulsividade



Bullying - Mentes Perigosas na Escola



É isso!










o outro lado do desmame



Mãe, eu já nasci praticamente no seu peito. Lembro quando me seguraram, me enrolaram como um bichinho que se aquece no casulo e me colocaram pra mamar logo nos primeiros instantes de vida. Senti seu cheiro, sua emoção e não fiz esforço algum pra me alimentar da mais pura fonte de amor que um ser como eu, que acabava de conhecer o mundo, poderia desfrutar. Naquele momento, não poderia ter existido pra mim melhor forma de acolhimento. Senti-me abraçado, amado e restaurado  do turbilhão de emoções inconstantes que vivi até o momento em que olhei pra você.
Sei que na primeira noite no hospital não deixei você dormir direito. Acordei a cada dez minutos pra me alimentar. Não tive escolha, mãe, porque senti muita fome e o colostro ainda não era suficiente pra me saciar. Mas tive paciência. E você também, porque não se rendeu às sugestões de me darem um leite que eu não queria. Quando o leite chegou pra valer, já em casa, pudemos finalmente descansar. Eu já me alimentava melhor, conseguia dormir um pouco mais e você ganhou mais um tempinho pra relaxar.
Você facilitou tudo. Não reclamava de acordar de madrugada pra dar o meu leite, cuidava do peito para que eu não o machucasse sem querer e perto de voltar a  trabalhar você não deixou que o sono e o cansaço a impedissem de tirar o leite e guardar no congelador, mesmo que fosse de madrugada e sentindo dor nas mãos, porque esse foi o seu jeito de ordenhar, aquele que deu certo.
Quando comecei a experimentar outros sabores, outras texturas, nos idos dos meus seis meses, eu sei que você criou a expectativa de que eu não mais me interessaria pelo seu leite, aquele mesmo, mãe, ao qual fui apresentado ainda na sala onde você me viu pela primeira vez. Eu sei, eu sei. As minhas irmãs aceitaram outro leite, desgarraram-se mais cedo, decidiram pela “separação” muito antes de mim. Mas porque teria de ser assim comigo também? Estou lhe surpreendendo, hein?
Eu sei que você está cansada, porque sempre defendeu a livre demanda; que já tenho quase um ano e meio acordando pelo menos três vezes de madrugada pra mamar; que eu poderia colaborar um pouquinho mais com você e dormir uma noite inteira sem dar sequer uma gemidinha como já aconteceu umas duas vezes; sei que eu poderia ter aceitado facilmente todos aqueles tipos de leites diferentes que você me ofereceu e que eu detestei, deixando você estupefata.
Eu sei que você tem sido paciente e às vezes parece até acomodada com a situação, já exausta.
Mas mãe, é que eu gosto quando você me pega no colo, quando você deixa eu me agarrar a você e me deliciar sem preocupação com o tempo e sem a obrigação de ter de me alimentar apenas porque preciso crescer ou engordar, mas porque aquele é o alimento de que mais gosto, porque adoro sentir seu corpo quentinho, o seu afago na minha cabeça e os beijos que você dá na minha mão... É o nosso momento, mãe, que eu não preciso dividir com ninguém.
Por tudo isso, mãe - e porque eu sei que você também transborda de amor por mim quando mergulho no seu peito e quando me olha com seu olhar sonolento - dá pra aguentar mais um pouquinho? Dá pra esperar eu decidir?

Dilema de um filho que não desgruda do peito e de uma mãe que vai e volta na decisão pelo desmame.
Enquanto a decisão não aparece, a minha ou a dele, ficamos como está, com livre demanda, muitas noites interrompidas e muito amor (e leite) no peito.

parabéns para as bonecas

O tão esperado aniversário das bonecas aconteceu hoje. Foram duas horas de muita diversão, bagunça, comilança e brincadeira (em dias como esse não poupo guloseimas, que me perdoem as naturebas). As coleguinhas de sala das meninas vieram em peso, passaram uma tarde diferente e puderam se curtir fora do ambiente escolar.
Na semana passada fizemos os convites. Alice até conseguiu escrever os nomes das suas convidadas. Ficaram lindos e originais.
O bolo nós fizemos ontem à noite, mas deixamos pra rechear e confeitar hoje de manhã. Claro que a cozinha ficou destruída bem suja, mas o resultado compensou. A festa foi muito esperada e fiz questão de que participassem de tudo!


Fizemos roda de música e de contação de histórias. Tudo bem que os chocalhos e pandeiros que distribuí para as meninas abafaram completamente a minha voz e que no momento da contação eu já estava fazendo um esforço enorme (#gargantaseca), mas o bom mesmo foi a ajuda que tive: Carol leu um livrinho inteirinho para a galera, Lili mostrava toda hora as imagens do livro que li junto com ela, minha afilhada Nanda contou uma historinha diferente, recitando um versinho muito fofo e duas amiguinhas de Alice também contaram suas histórias (a essa altura algumas crianças já tinham levantado pra comer cachorro quente, outras tocavam os chocalhos e João chorava desesperadamente querendo meu colo, creio que morrendo de ciúmes em me ver com tanta criança!).
E Carol ainda conseguiu pintar as carinhas de algumas meninas. Ela estava se achando, linda de morrer, toda orgulhosa. Pegou as cadeirinhas e falou pra fazerem fila. Auto-confiança é tudo, hein?



No final do dia teve gente reclamando de ter de ir pra casa, gente com roupa suja de molho de cachorro quente e brigadeiro e várias coisas gosmentas coladas no chão (não sei se era brigadeiro, salsicha amassada, resto de quibe ou as estrelinhas de açúcar que caíram do bolo e foram pisoteadas.).
Sei também que Alice sentiu a ausência de uma de suas coleguinhas mais queridas, Juju, que não veio porque estava com febre. Ela ficou de ligar pra conversar com Alice e não ligou (a mãe dela me ligou hoje cedo dizendo que Juju estava dormindo e que quando acordasse telefonaria pra Alice). Aí a cobrança caiu em cima de mim, né? ("você disse que ela ia ligar!!!", foi o que ouvi de Lili durante o banho). Tive de dizer que Juju não ligou porque não deveria estar se sentindo bem e que provavelmente conversaria com ela na segunda-feira.
Bem, e como sou neurótica por limpeza não gosto de dormir sem deixar tudo arrumadinho, ainda tive forças pra passar meu super-hiper-mega-blaster-rodo-mágico na casa toda, meu fiel escudeiro dos dias de Domingo e daqueles em que a empregada vai embora mais cedo, como hoje.
Tudo limpo, crianças banhadas e com dentes escovados, Alice reza antes de dormir: “Jesus, obrigada pelo dia de hoje”* (embora durante o banho tivesse dito: “mãe, não gostei do aniversário”. “Por quê, filha?”, perguntei. “Porque acabou muito rápido!”).
E Carol sai com essa: "Mãe, a gente pode 'encomendar' outro aniversário de boneca? Depois de amanhã?" Oi?
Hoje ainda ouvi duas coisas lindas no final da festa:
Mãe, hoje foi o dia mais feliz da minha vida”, de Carol, quando ela terminou de se despedir de uma amiguinha na porta do prédio.
Tia, eu te amo”, da coleguinha de Carol portadora de síndrome de down, frase acompanhada de um abraço tão caloroso que quase me fez chorar.
Tem como esquecer um dia como esse?
















*Sempre fazemos essa oração antes de dormir e hoje ela fez uma carinha pra mim como estivesse agradecendo especialmente pelo aniversário das bonecas.















Maternidade Real - ou a minha maternidade ideal




Quando vi o tema proposto por Carol para a blogagem coletiva, naturalmente comecei a pensar em tudo aquilo que lemos e ouvimos antes de vivenciarmos a maternidade (a respeito da amamentação, dos cuidados com o bebê, da introdução dos alimentos sólidos, do desfralde, do início da vida escolar etc.), das atitudes que devemos ter com os nossos filhos e no que, de fato, vivenciamos a partir do instante em que acolhemos o nosso bebê nos braços.
E confesso que essa dicotomia (maternidade ideal x maternidade real), pra mim, é permeada de relatividade, simplesmente porque a maternidade ideal, no meu entender, é aquela vivida de acordo com a minhas escolhas conscientes, com os meus objetivos, com aquilo em que acredito. E, nesse sentido, não há um conflito entre o real e o ideal, porque o ideal é aquilo que a gente constrói, de acordo com a nossa realidade. Os paradigmas, os padrões pré-estabelecidos e os manuais não podem ser aplicados cegamente quando estamos lidando com emoções, com relações complexas e com as limitações que todos nós temos, sejam elas de ordem psicológica ou material.

Minha intenção aqui não é pintar a maternidade de rosa ou, inversamente, de uma cor sombria, principalmente porque cada um tem o direito de viver (e viverá) sua experiências pessoais, que nunca será igual a de outra pessoa. Cada um terá a oportunidade de tirar suas próprias conclusões, dentro da realidade em que vive e trazendo a influência da sua própria história de vida.

Tudo o que aprendi antes de Carol nascer foi fruto de muita conversa com outras pessoas que já tinham vivido a experiência da maternidade, da leitura de artigos pela internet e, em menor escala, do recurso aos livros (o único manual que me acompanhou até Carol sair da condição de recém-nascida foi A Vida do Bebê, de Rinaldo De Lamare, e que me ajudou muito nas poucas vezes em que o consultei). As conversas com pediatras também foram extremamente proveitosas.
Ora, somos bombardeadas com informações, estudos e orientações em sites, livros, revistas etc. Muitas delas devem ser observadas, muitas passam longe de poderem ser aplicadas em determinadas situações, outras fazemos questão de não adotar e tantas outras a gente nem perde tempo tentando discutir, porque precisamos resolver os nossos problemas, porque não somos máquinas, porque precisamos seguir adiante e porque os manuais de instrução muitas vezes só servem para enlouquecer quem está atrás de informação.
E vou ser muito sincera. Conto nos dedos as ocasiões em que me senti culpada por não ter seguido as regrinhas básicas de “como cuidar do seu filho”. Sempre confiei muito mais no meu instinto, nas coisas de apreendi e que de fato eram importantes pra mim. Não, não sou convencida, não sei tudo, não sou invencível, não sou a mulher maravilha, não dou conta do jeito que a sociedade exige, apenas assumi a condição de mãe que tenta fazer o melhor e, se não der pra fazer, não vai ser o fim do mundo. Essa, sim, é a minha maternidade ideal.
Tenho momentos de culpa? Claro que sim! Mas não porque ouvi de alguém que o que fiz era condenável, mas sim por ter ferido, sem querer, o meu instinto ou porque tive de adotar uma conduta que de fato não queria (mesmo que aos olhos dos outros fosse a melhor), só para ser mais imediatista. E é assim que vou amadurecendo a maternidade. Não tenho resposta pra tudo, ao contrário, estou sempre correndo atrás dela.
Quantas coisas já fiz que se distanciaram das recomendações universais? Só alguns exemplos: dei frutas às crianças (com pouco mais de seis meses), retiradas da geladeira, quando a indicação é de frutas na temperatura natural; João tomou banho direto no chuveiro antes de completar um mês de vida no colo do pai (pra que banheira?); frutas e verduras orgânicas? Conto nos dedos as vezes em que comprei essas raridades (não tem bolso que aguente!); dei remédios para as cólicas porque os métodos naturais nunca funcionaram (banho de água morna, bolsa de água quente, barriga com barriga, massagem abdominal etc.); os três sempre comeram assistindo televisão; essa conversa de que a criança tem de se concentrar na comida, prestar a atenção no que está fazendo, ver as “cores” da refeição etc., tudo utopia pra mim; a única forma que encontrei de mantê-los no cadeirão foi ligar a TV e colocar um bom DVD, de preferência bem colorido, daqueles que deixam as crianças bem hipnotizadas entretidas mesmo; apesar disso, os três se alimentam muito bem, com restrição de algumas frutas; sempre ninei as meninas no colo pra dormir, mesmo sentindo dores na coluna não abria mão disso; e João dorme no peito, mamando (ele só não dorme assim quando estou fora e outra pessoa o coloca pra dormir);  quando voltei a trabalhar depois do nascimento das meninas introduzi o leite artificial após o sexto mês e as duas deixaram o peito no oitavo, por si sós; João acorda 1.254.987 vezes à noite pra mamar (- fome + dengo), portanto, dormir a noite inteira, nem pensar (deixar chorando? Tô fora!); Carol teve “cárie de mamadeira” porquê nunca me lembrava de limpar os dentes dela de madrugada após a mamadeira de leite e, quando me lembrava, não tinha mais forças pra pegar algodão e fazer a limpeza; aqui todos nós temos preferência por filmes, desenhos e brincadeiras educativas, porque assim fomos criados e criamos os nossos filhos; mas não proíbo as meninas de terem contato com um outro universo, porque acho que uma parte dele também pode trazer a oportunidade de aprendizado: elas assistem pica-pau, brincam de espada, adoram os desenhos da Barbie e jogam video-game no computador, com conteúdo e horário controlados.

Já me irritei (e me irrito) algumas vezes? Várias: quando as crianças demoram de dormir, quando chego em casa morta de cansaço e ao invés de um abraço ouço lamentações e brigas; quando quero ficar sem fazer nada (oi?) ou quero ler e não consigo porque João não dorme de uma vez e fica gemendo de hora em hora até resolver entrar em sono profundo; quando estamos almoçando todos juntos e Carol e Alice ficam brigando pra ver quem vai falar primeiro; quando estou atrasada e as meninas ficam enrolando pra vestir a roupa da escola (sou neurótica com horários) etc. Poderia relatar tantas outras coisas...

Já saí sozinha para "respirar" um pouco, para ter um momento MEU. De vez em quando preciso disso e volto renovada, porque é um momento que só penso em mim e mais ninguém.
Demonstro a minha insatisfação, a minha irritação para os meus filhos? Com certeza. Quero ser alguém “normal” para eles. Quero que eles saibam que tem certas coisas de que não gosto, que me tiram do sério e que não sou perfeita. Quero ser verdadeira e não fingir ser alguém que não sou.
Mas, com todos os momentos de irritação, tem uma coisa de que não abro mão: da minha opção por resolver os problemas através da conversa, do diálogo, da paciência. Sem berros, sem tapinhas, sem ofensas verbais. Do contrário, estaria desrespeitando a mim mesma, a minha própria natureza. Quem convive comigo, sabe como sou uma pessoa tranquila e da minha aversão por discussões e atitudes explosivas. Se é fácil? É óbvio que não! Mas tem dado certo e vou continuar por esse caminho até que a vida me prove que há opções melhores. Isso é garantia de que meus filhos serão adultos conscientes, autônomos, criativos, educados, respeitosos etc.? Não! Mas estou fazendo a minha parte e da forma que entendo ser a melhor, utilizando tudo o que está ao meu alcance. Sou melhor que os pais que adotam opções totalmente diferentes? Claro que não!!! Convivo muito bem com as escolhas dos outros e aprendo também.

Enfim, precisamos parar de querer seguir um ideal "padronizado". Sem falar que o “politicamente correto” pode não ser tão correto assim. O que existe mesmo é a realidade que nos cerca, que nos faz escolher por um ou outro caminho, que nos faz pensar o que vale ou não a pena. A batalha que revigora, que nos impõe uma reflexão, não é aquela travada com o mundo (apenas aproveite com tranquilidade o que ele tem a oferecer), mas com nós mesmos, com a nossa consciência e com os ideais e princípios que defendemos. E não se iludam: essa batalha ocorre todos os dias e dura para sempre.
Com tudo isso, seria mãe um milhão de vezes. 






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