Era véspera da viagem que faríamos na semana passada. Lá fomos eu e Alice ao shopping comprar os ovos de Páscoa para a nossa empregada, os filhos dela e para a babá, além de resolver outras coisas. João e Carol ficaram em casa.
#pausa#
Carol preferiu ficar ensaiando uma de suas apresentações. Ela adora se vestir de palhaço ou de mágico, ligar o som e ficar dançando e cantando; o detalhe é que ela não gosta que vejam; esses ensaios são sempre secretos, para não estragar a surpresa da apresentação, que até hoje não aconteceu por falta de oportunidade; quem sabe no aniversário dela.
Alice sempre topa ir pra rua. É só chamar que ela fica doidinha e sai correndo pra se arrumar. E se ninguém chamá-la ela se oferece numa boa. E aí sempre que dá a gente leva. Eu me divirto com ela.
#despausa#
Naquele dia ela esperou pacientemente eu resolver tudo e no final das contas disse que estava com fome e que queria um sorvete. Combinamos de primeiro tomar um café e comer pão de queijo. Ela aceitou na hora, porque é louca por pão de queijo. Quando a porção que pedimos chegou à mesa, ela não queria me dar um pãozinho sequer.
- Mas, filha, você não pode comer tudo, não faz bem. E eu também estou com fome.
Comi dois. Sobraram quatro para ela. Quando fui pegar o terceiro...
- Tá bom, mãe, você já comeu.
- Tudo bem, filha, pode comer, pode comer esses quatro.
Quando pegou o último pãozinho, ele o partiu ao meio e me deu a outra metade:
- Toma, mãe.
Lancei um sorriso e dei um beijinho nela.
- Obrigada, meu anjo.
Após alguns minutos de silêncio, ela comentou:
- Mãe, eu sei compartilhar. (morri do coração...)
- Estou vendo, filha. Que bom. Você aprendeu com quem?
- Com o livro de Bibi, mãe. Aquele, ‘Bibi compartilha suas coisas”. (Olha aí a importância dos livros para reforçar os valores que passamos aos nossos filhos...)
Peguei a garrafa de água pra beber e prontamente ela falou:
- Mãe, você tem que dividir.
- Claro, meu bem.
Ela pegou dois copos e levou quase duas horas até conseguir colocar a mesma quantidade de água nos dois. Vou dizer o quê?
Depois fomos pegar o sorvete. E durante o trajeto até o carro, todo mundo que passava por nós ria de Alice, que àquela altura estava com a boca completamente lambuzada de sorvete de chocolate (a roupa nem se fala). Eu olhava pra ela e ria junto.
Já no carro, enfrentamos o maior trânsito no caminho pra casa. Alice, com uma voz impaciente, começou a conversar comigo:
- Mãe, não gostei muito desse sorvete.
- Não gostou, filha? Por quê?
- Porque quando tomei esse sorvete tudo ficou estranho.
- Estranho como?
- Tudo engarrafado, mãe. Os carros não andam.
Quando chegamos em casa, Carol e João já tinham tomado banho e jantado. Estavam só esperando a gente pra dormir.
E durante a briga que acontece toda noite pra ver quem vai ficar comigo na hora de dormir (tenho sempre que ficar lembrando do "combinado" do revezamento), Alice sai com essa:
- Mãe, porque você não é duas?
Tem mais. Hoje, andando pra lá e pra cá pela casa arrumando coisas, Alice ficou atrás de mim o tempo todo. Quando resolvi sentar na cama, ela sentou ao meu lado e me disse:
- Mãe, vou ficar te seguindo, tá?
- Porque, meu amor?
- Porque eu quero ficar com você.
- Mas meu amor, mamãe não está aqui com você?
- Mas eu quero ficar no seu colo...!
Eu morro com isso. São três pessoinhas que estão sempre carentes de uma mãe em tempo integral.
A gente faz o que pode, né?






