No auge da polêmica em torno de Amy Chua, não tive vontade de ler o seu livro. Imaginei um texto chato e tenso. Somente depois de ouvir comentários aqui e ali e ler matérias a respeito, a vontade apareceu. E o post da Mari – Viciados em colo me deixou ainda mais curiosa.
Li e acabei me surpreendendo. Leitura leve, fluente e, diria, tensa, apenas em razão de fatos específicos narrados pela autora e não pelo texto em si.
Pra mim, a simples história de uma mãe que quis impôs às filhas a maneira “chinesa” de ser. Filhas que teriam de ser, para ela, o que ela foi para seus pais. Isso significaria temer as desaprovações e, portanto, evitá-las. Mais importante do que qualquer consideração a respeito dos sentimentos que pululavam no coração de cada uma de suas filhas, era fazer com que estas respeitassem profundamente os pais e recebessem os valores de sua cultura mesmo que por obrigação, para evitar, inclusive, a “decadência” da família. Daí se constrói um caminho de brigas, imposições, desafios e muito autoritarismo, com algumas pinceladas de humor, acreditem.
Confesso que não senti raiva de Amy ou fiquei assustada com as suas atitudes. O contexto é autobiográfico e isso fez com que me deixasse levar com certa placidez pelas histórias de sua infância, pelas descrições a respeito da relação que tinha com o seu marido e suas filhas e as avaliações que fazia das mães chinesas, sempre as comparando com as mães ocidentais, estas últimas alvo de severas críticas, normalmente relacionadas à defesa da liberdade de escolha e preocupação “excessiva” com a autoestima dos filhos.
Se de um lado Amy era rígida, autoritária e extremista na educação das meninas, de outro também vacilava com seus sentimentos íntimos e sofria com algumas decisões que tomava, um jogo que, a meu ver, faz parte de uma mãe que quer o bem de seus filhos e só está querendo acertar. Com todos os percalços e situações de conflito emocional extremo, e mesmo discordando com veemência de algumas atitudes que adotava com as meninas, não tive dúvidas do amor dessa mãe por suas filhas. Não pelo carinho e afeto diários, que se revelariam em beijos e braços calorosos e conversas descompromissadas, sem cobranças, porque isso, de fato, não existiu. Mas pela vontade que demonstrou de querer o melhor pra elas, independente dos métodos que utilizou pra isso (ameaças, “toma lá, dá cá” e várias chantagens) ou do que ela considerou ser o “melhor”.
A maneira com que Amy educou suas filhas se divorcia, e muito, daquela que aplico, assim como o que ela colocou como o “ideal” para suas crias. E foi isso que tornou a leitura muito mais interessante pra mim. Pensar sobre outra forma de educar, mesmo que permeada fortemente pela questão cultural, sem a pretensão de encontrar o que está certo e o que está errado, foi um exercício que adorei fazer.
Lendo ainda uma reportagem que saiu sobre a Mãe Tigre na Veja do mês passado/06.07.2011, que traz muitas passagens do livro, chamou a minha atenção a referência ao urso panda, como metáfora mais adequada do que os tigres no que toca à criação dos filhos. Porque “além de ingenuamente chineses, como quer Amy Chua, simbolizam duas qualidades essenciais ao exercício da maternidade e da paternidade: força e compreensão. É uma combinação que leva à disciplina e também ao convencimento, à flexibilidade. Um dos aspectos que mais angustiam os pais hoje é a cacofonia de orientações contraditórias de psicólogos, pediatras, pedagogos, criançólogos em geral. Diante disso, o psicólogo Davi Anderegg, professor do Bennington College, tem um grande conselho a oferecer aos pais: ‘Siga sua convicção’. (...) Anderegg entende que os filhos são criados segundo a cultura local. Como a cultura varia enormemente de um lugar para outro, como explicar que as crianças, em geral, cresçam sadias e normais na Suíça, no Suriname ou no Sudão? A resposta é simples: porque a criança recebe bem aquilo que lhe é entregue com serenidade e convicção – aquela convicção das mães que ouviram de suas mães, que por sua vez ouviram de suas mães, que ´é assim que se cria filho”. (destaquei). E mais: “a convicção pode mudar, evoluir, transforma-se com o tempo. O importante é que seja substituída por outra convicção, e não por uma receita papagaiada”.
A frase que destaquei em negrito tem muito a ver com o que penso. Acredito muito nisso, é preciso confiar, acreditar, nas escolhas que fazemos. Se tudo vai dar certo, se as opções foram ou não equivocadas, isso a gente vai saber depois e sempre torcendo pra que tudo dê certo.
E outra coisa é a “forma” como vamos expressar essa convicção. O caminho do embate direto e sofrido e de seguir alheia aos sentimentos de meus filhos, com certeza não seria nem a minha última opção.
Como qualquer mãe, farei o que for possível para que meus filhos sejam felizes, para que fiquem bem e saibam enfrentar os dissabores da vida com a máxima tranquilidade que a situação permitir. E, com certeza, pra isso, farei muitas escolhas por eles. Mas jamais vou deixar de ouvi-los, de permitir que façam o que gostam (e não somente o que é necessário), que se socializem, que conheçam pessoas e culturas diferentes, que tenham prazer de viver. A disciplina e a responsabilidade não são incompatíveis com a liberdade de escolha e com uma educação cuidadosa e amorosa. Elas podem caminhar juntas.
Adorei também o último capítulo do livro, em que Amy descreve como foi todo o processo de produção dos seus escritos, principalmente por descrever, com detalhes, as observações e reações das filhas cada vez que liam os rascunhos. Até nessa hora houve conflitos.
Enfim, fiquei encantada com o livro e admirada com a coragem e convicção de Amy.
Recomendo muito, e saí dele convencida de que MÃE, no fundo, é tudo igual: ama os seus filhos e querem o melhor pra eles, mesmo que escolham, pra isso, conscientemente ou não, caminhos tortuosos.
E nada melhor do que buscar o equilíbrio, o que significa estar sempre em estado de alerta e pronta pra reconhecer os erros e aprender com eles.