Muito se falou nessa última semana
a respeito de parto, violência obstétrica, parto domiciliar, respeito à liberdade
de escolha e Marcha do Parto em Casa. Toda essa movimentação me fez reviver as
histórias dos meus três partos. Pensei em cada um deles, na forma como
aconteceram, nas informações que tinha em cada período, o que pensava à época
e, no meio desse turbilhão, foi bom vislumbrar, com outro olhar, os caminhos
que trilhei.
Primeiro não posso deixar de dizer
que quando vi nas redes sociais, nos jornais, as fotos e relatos de todos os
que participaram das Marchas do Parto em Casa, em todo o Brasil, fui tomada por
uma emoção que jamais imaginei pudesse sentir. Observar milhares de mães,
gestantes, crianças nascidas em casa, segurando placas e reverberando aos
quatro cantos a necessidade de se respeitar as escolhas das mulheres sobre ONDE e COMO parir, não foi como assistir a um simples protesto. Representou uma luz na escuridão, uma peça fundamental de um
quebra-cabeça que a gente não consegue montar porque sequer se dá conta dele.
E o ponto fundamental nessa
história toda é a falta de informação. A maior preocupação dos médicos normalmente
é com a saúde da mãe e a do bebê que está em sua barriga. Natural, claro. Mas e o parto? Não há tempo para falar sobre O
parto. Consultas rápidas, respostas curtas e nada de aprofundamento do que pode
acontecer no dia do parto. Como ele será? Quais as possibilidades? Quais os
profissionais que podem ser envolvidos? A mãe está com medo? Insegura? Como
trabalhar isso durante a gestação? Como prepará-la para escolher a melhor forma
de seu filho nascer?
Não tem preparação. As regras são
claras e todos conhecem os vários motivos que conduzem a uma cesárea
desnecessária (não houve trabalho de parto, a mãe está com medo e não há tempo
de prepará-la, o bebê é GIG etc.). Ora, o médico é quem, de cara, recebe o voto
de confiança dos pais. Se o médico não está junto, sintonizado com as opções,
as ansiedades, as escolhas dos pais, e quer simplesmente impor a sua vontade,
ele se torna, indevidamente, o dono do processo.
Na minha primeira gravidez, a única
certeza que alimentava era a de queria um parto normal. Foi a única coisa que “exigi”
da minha médica. Não conversamos mais nada, sobre o que aconteceria no
hospital, os detalhes dos procedimentos, sobre a possibilidade de não tomar
anestesia ou sobre a episiotomia. Minha bolsa rompeu, mas não tive contrações e
cheguei ao hospital sem dilatação. Ainda no hospital, ela me perguntou se eu
queria realmente tentar o parto normal e eu insisti que sim. A ocitocina foi
ministrada e, no auge da minha dor, após seis horas de trabalho de parto,
supliquei por uma anestesia. Durante a dor, não tive massagem, não me
orientaram para caminhar, não me deram alternativas. A anestesia não me ajudou,
ao contrário, tirou-me as forças para expulsar o bebê. Mas Carol nasceu de
parto normal, como sempre quis. Não foi amamentada na sala de parto porque,
desinformada, eu não sabia dessa possibilidade e nem a minha médica me informou
a respeito. E o hospital? Pra que dizer, né?
Na segunda gravidez, a de Alice,
decidi que não queria tomar anestesia e comuniquei à médica. Tentaria um parto
mais natural. Desta vez tive rompimento de bolsa, contrações e dilatação. Em
apenas três horas, Alice nasceu. Não tomei anestesia e fiz episio. Não tenho
dúvidas de que ela foi necessária. Alice nasceu com 3.820kg e de forma muito
rápida, quase não deu tempo de fazer o pequeno corte, tanto que não foi
suficiente e tive uma leve laceração. A médica chegou a comentar que não teria
feito um parto normal se soubesse que Alice nasceria com aquele peso. Também
não foi amamentada na sala de parto. Eu ainda não sabia que poderia brigar por
isso.
Quando engravidei de João, meu
caçula, mantive a decisão do parto normal, de que não queria anestesia e, já mais informada, fui além: queria ter meu filho numa sala própria para
parto natural (PPP) e queria amamentá-lo logo após o nascimento. Comuniquei
isso a minha médica desde o início e ela concordou plenamente. A médica não era
a mesma; a anterior havia deixado a obstetrícia.
Só que não houve rompimento de
bolsa, não tive contrações, não entrei em trabalho de parto. Já estava com
quase 42 semanas e um prognóstico de peso do bebê de quase cinco quilos. Fiquei
com medo de ter de fazer uma cesárea. Aliás, estava apavorada. Decidi, então,
em conjunto com Cinho e com minha médica, que faríamos a indução. Tomei ocitocina
e depois de sete horas de trabalho de parto, permeadas por longas caminhadas
nos corredores do hospital, massagens relaxantes, conversas com minha médica,
apoio integral das enfermeiras, auxiliares e, incondicional, de meu marido, fui
caminhando para a sala PPP. Lá, ainda esperei, andei, reclamei, fiz xixi,
sentei e levantei da cama várias vezes, brinquei com minha respiração, recebi o
carinho de todos, de Cinho e, quando não aguentava mais, sentei na cama, fiz
toda a força que podia a cada contração e meu filho nasceu. A médica enrolou
aquele bichinho faminto e me entregou para amamentá-lo. Foi um sonho que se
realizou.
Pensando no parto de João, eu não
tenho dúvidas de que faz uma enorme diferença ter um filho num ambiente mais
acolhedor, mais humanizado. Faz diferença participar do processo, estar
consciente do seu corpo, dos seus limites. Faz diferença amamentar ainda na
sala de parto, como faz.
Se na época do parto das meninas eu
já tivesse a informação que carregava no parto de João, teria lutado por um
parto mais humanizado. E se tivesse outro filho, com a informação que tenho hoje,
e contasse com o apoio incondicional de Cinho, faria meu parto numa banheira,
com uma água bem quentinha e uma música do lado tocando baixinho.
E não há qualquer contradição
quando digo que meus partos foram maravilhosos. Claro que, na primeira
gravidez, queria que tivessem me ensinado a me preparar para lidar com a dor. Claro
que queria ter amamentado Carol e Alice ainda na sala de parto, como aconteceu
com João. Só que cada um aconteceu dentro de contextos próprios e com as informações/limitações
que tinha em cada época. Era o que tinha de acontecer.
E ponto. Não há traumas por isso. Porém,
fica a lição: para ter segurança das suas escolhas, não basta querer. É preciso
conversar, ponderar, ler, informar-se, acima de tudo. Já fez as suas escolhas? Lute
por elas, não se deixe convencer tão facilmente. Parto normal, cesárea,
hospitalar, em casa, não importa. O mais importante é fazer a sua escolha com informação,
responsabilidade e consciência.
***
Hoje estou lá na Colcha de Retalhos do Mamatraca, falando um pouquinho mais sobre meus partos. Apareçam!



Oi, querida! Que saudades daqui! E cheguei num texo maravilhoso sobre um assunto que adoro!
ResponderExcluirÉ realmente uma busca, quase uma jornada de auto conhecimento parir naturalente no Brasil!
Eu tb tive um parto normal com as intervenções de praxe com a Ísis, era o que eu queria na epoca, não guardo traumas, ao contrário, foi maravilhoso naquele contexto.
Já com Pedro quis parto domiciliar, consegui e foi maravilhoso. Para mim não há melho forma de trzer um filho ao mundo, ms não acho que todas devem parir assim. Cada mulher deve buscar informação e escolher o melhr parto baseada em informações vedadeiras.
Direito de escolha, mas de escolha com consciência.
Beijos,
Nine
Ivana, você disse tudo: o que falta é informação. Fico preocupada com essa exposição toda de mães falando sobre parto em casa porque sou usuária do SUS e como tal, conheço mãe que mal entendem a necessidade de um pré natal. Muitas tem tão pouca informação e um entendimento pífio da mísera informação que recebem. Para essas, é fácil distorcer o que ouvem e se arriscar a ter um bebê em casa "porque ouviram na tv" mas sem condições de higiene, conforto ou correndo enormes riscos.
ResponderExcluirÉ claro que sou a favor do direito de escolha. Eu tive 4 partos, cada um com um nível de informação e entendimento diferente e sei que isso fez diferença na forma como fui tratada e como aconteceram meus partos. Mas acima de tudo, é necessário muita informação às mães e muito preparo das equipes médicas.
Um longo caminho a se percorrer.
Bjks
Ivana,
ResponderExcluirConcordo que cada parto ocorre em um contexto da vida da mulher e diante de um nível de informação. Minha trajetória foi parecida com a tua, no sentido de que o primeiro parto eu queria que fosse normal e ponto. Não tinha conhecimento de episio e todos os outros procedimentos que poderiam acontecer. Na verdade tinha, mas não questionava. Agora, na segunda vez, estou buscando o que eu quero, mantendo desde já um diálogo aberto com a minha médica. Inclusive na última consulta conversamos sobre o parto do Vítor e falei tudo que gostei ou não gostei. A partir disso começamos a construir juntas o caminho do meu segundo parto.
Belo texto!
Beijos, Ananda.
Ivana,
ResponderExcluirConcordo que cada parto ocorre em um contexto da vida da mulher e diante de um nível de informação. Minha trajetória foi parecida com a tua, no sentido de que o primeiro parto eu queria que fosse normal e ponto. Não tinha conhecimento de episio e todos os outros procedimentos que poderiam acontecer. Na verdade tinha, mas não questionava. Agora, na segunda vez, estou buscando o que eu quero, mantendo desde já um diálogo aberto com a minha médica. Inclusive na última consulta conversamos sobre o parto do Vítor e falei tudo que gostei ou não gostei. A partir disso começamos a construir juntas o caminho do meu segundo parto.
Belo texto!
Beijos, Ananda.
Uau...
ResponderExcluirVocê lutou ate o fim, nos 3 partos..
Legal sua história...
Na realidade tudo é um conjunto...
Temos que ter um bom medico e precisamos entender tambem, para que assim possamos reclamar dos nossos direitos e possamos falar, eu quero isso e sei que nessas condições posso..
Isso ja ajuda muito...
Bjs